Memória

Com as cortinas do quarto fechadas, por um instante o homem confunde o barulho do ventilador ligado com a chuva. Ele não se levanta. Aperta o botão snooze do rádio-relógio, e fica ali, deitado junto ao lençol amarfanhado, esperando que as lembranças da noite anterior se decantem sobre sua frágil memória. Mas lembrar não é entender.

Com esforço, ele se senta, apoiando suas mãos no colchão e toma ciência de sua batalha diária: as molas rangendo sob seu sobrepeso, os minutos do mostrador alternando-se inexoráveis seguindo a lógica imposta por algum algoritmo dentro do chip, os algoritmos do mundo impondo sua lógica ao chip e ao homem. As solas do pé no sinteco morno, as molas que agora suspiram aliviadas, o ranger dos meniscos no arrastar até a pia do banheiro.

O homem se olha, mas não se reconhece de primeira. Há um tempo dentro desse instante em que o homem ainda não é ele mesmo. É apenas um reflexo no espelho. E o homem aproveita esse tempo, esse tempo que escapa ao rádio-relógio, esse tempo que se atreve a apoiar-se nos joelhos do homem, esse comensalismo entre o tempo e o homem, equilíbrio que irá se desfazer quando finalmente o homem perceber que o reflexo no espelho a sua frente é ele próprio.