1 razão para assistir

13 reasons why

Muito tem se falado nos últimos dias sobre a nova série da Netflix “13 reasons why“, baseada no romance homônimo de Jay Asher. Imagino que tenha sido difícil, para quem ainda não assistiu à série, passar incólume sem ser alvo de spoilers. Mas, caso você tenha chegado até aqui sem tomar conhecimento do desenrolar ou do desfecho da trama (e queira continuar sem saber), aconselho a não ler este texto.

Vamos lá. A série é dividida em 26 episódios distribuídos nos lados A e B de 13 fitas cassetes nas quais Hannah (interpretada por Katherine Langford) gravou um incomum bilhete suicida endereçado às treze pessoas a quem ela responsabiliza pelo seu trágico fim.

Confesso que a série não me “pegou”. Para mim, ela se arrasta como o rebobinar de uma fita k7 em um walkman com pilha velha. Acompanhei mais por curiosidade (e pelo tema, que me interessa diretamente) do que por uma estrutura narrativa que me levasse adiante. Há um fio condutor que perpassa toda a série que é a pergunta: “por que diabos Hannah também culpa Clay (Dylan Minnette) por ela ter tirado sua própria vida?” A este arco maior da personagem principal se interpolam arcos menores; cada episódio apresentando a relação de Hannah com um dos 13 “responsáveis” por seu suicídio.

Mas quem é Clay? Clay é o garoto por meio do qual o espectador vai escutando as fitas cassetes e revivendo a trajetória e as questões de Hannah no colégio de classe média americana. Qual a culpa de Clay, além de parecer gostar de Hannah mas ser tímido o bastante para não chegar junto? Qual a responsabilidade que Hannah deposita no jovem? Com essa pergunta na cabeça (e com certa dose de persistência) vamos permitindo que um episódio traga outro e outro e depois outro até o episódio final, onde assistimos o autoextermínio de Hannah.

A maior parte dos posts e matérias que li alertava para o risco da série gerar novos suicídios. Esse efeito imitação é também conhecido como “efeito Werther”. O termo foi cunhado em referência ao romance de Goethe, “Os sofrimentos do jovem Werther”, ao qual credita-se uma onda de suicídios de pessoas que teriam imitado a maneira como o personagem principal se suicida.

Ok, então, o que podemos fazer? Proibir que séries abordem o assunto? Se a série é baseada no livro, devemos também retirar o romance das estantes das livrarias? Sabemos que não. O suicídio é um tema delicado, de fato, mas ignorá-lo, não falar sobre ele, não vai nos ajudar a preveni-lo. Pelo contrário. Como o próprio lema da campanha Setembro Amarelo afirma: “falar é a melhor solução”.

Mas como falar e não correr o risco de gerar novos suicídios? Estamos diante de um dilema incontornável? Eu acredito que não.

Para tentar abrandar os efeitos negativos da comunicação do suicídio, a Organização Mundial da Saúde lançou um conjunto de recomendações endereçadas aos profissionais da mídia tais como: não publicar fotografias ou notas de suicídio, não detalhar o método utilizado, não simplificar as razões do porquê um suicídio foi cometido, não glorificar ou sensacionalizar suicidas e nem colocar a culpa em alguém.

Isso te faz lembrar de algo? Pois é, “13 reasons why”. A série elenca “responsáveis” pela morte de Hannah, simplifica razões e ainda detalha o método usado. Mas calma, pois aqui é importantíssimo fazermos uma distinção fundamental: neste caso em particular estamos falando de uma obra ficcional e não de uma notícia sobre um suicídio que de fato ocorreu.

Vários estudos sugerem, sob certas circunstâncias, que há uma espécie de “contágio” decorrente de uma notícia sobre suicídio na mídia, isto é, um suicídio retratado na imprensa poderia influenciar determinados indivíduos e induzi-los a imitarem o comportamento suicida.

Só que não há evidências concretas que liguem histórias de ficção de suicídio a posteriores fatalidades na vida real. Pelo contrário: além de não serem um estímulo ao ato suicida, filmes e séries de ficção que abordam o suicídio parecem gerar efeito positivo pois fornecem ao público mais informação sobre o assunto. De acordo com matéria da Exame de ontem, 11/4/2017, isso parece estar acontecendo.

Se você está atento, pode estar com uma pulga atrás da orelha: “peraí, e os suicídios que o pessoal atribui ao livro do Goethe?” Ótimo ponto. E é aqui que eu proponho uma hipótese que eu já havia aventado em minha dissertação de mestrado. Na falta de um nome melhor, chamarei de “efeito epistolar”.

Em 1985, após a veiculação do telefilme americano “Surviving” (também intitulado “Tragedy”), observou-se um aumento no número de entradas de casos de overdose nos serviços psiquiátricos e pediátricos. Não quero entrar no mérito de se as ocorrências estão de fato ligadas ao filme ou não. Mas, para que avancemos, aceitemos que sim. No filme, acompanhamos de perto os adolescentes Lonnie e Rick, amigos que se tornam confidentes um do outro. Esse tipo de dispositivo narrativo permite que o espectador possa entender o que se passa na cabeça dos dois, como se eles “pensassem alto” (sem que eles pensem alto, o que seria muito tosco, mas que a gente sabe que acontece em muito filme por aí…). Mas voltando: até aí, nada demais. O problema é que, no filme, não há outros pontos de vista que contrabalanceiem a ideação suicida do jovem casal, ideia que vai se solidificando entre os dois até que só resta uma saída: o trágico desfecho.

O que estou sugerindo é que analisemos uma possível semelhança entre o romance “O sofrimento do jovem Werther” e o telefilme “Surviving”. No romance de Goethe, a trama é construída em cima da troca de cartas entre os amigos Werther e Wilhelm. Aqui, o leitor tem novamente um lugar privilegiado, podendo, por meio das cartas, saber o que se passa na cabeça de Werther.

Tanto no telefilme quanto no livro, abordagens com menos pontos de vista podem ter suscitado um aumento no número de suicídios, pois as questões desses personagens (Lonnie, Rick, Werther) são tratadas internamente, sem que outras vozes possam se somar à construção do sentido. Assim, quando no filme Lonnie pergunta a Rick: “Não podemos fazer mais nada, não é?”, o próprio filme parece concordar com a lógica interna dos dois de que não há outra saída a não ser se suicidar; nenhuma outra alternativa é apontada (“Não há nenhum lugar para ir”).

E eis que, “13 reasons why” se vale do mesmo dispositivo narrativo, agora travestido de voice over. Hannah já gravou as fitas, já não há como conversar com ela, falar com ela, tentar dissuadi-la de se matar. Resta a Clay ouvir o seu bilhete suicida sonoro.

Em suma, para não me alongar mais: peças de ficção, seja literatura ou cinema, que se baseiam em troca de cartas, fitas gravadas enfim, mecanismos que, sem o devido tratamento, dificultam que a ideação suicida seja discutida, rebatida, questionada poderiam aumentar as chances de gerar um ato imitativo com suicídios reais subsequentes.

Fico muito com o pé atrás quando vejo alguém se perguntando “como a ficção deve abordar o suicídio”. A ficção deve ter uma maneira de abordar o suicídio? Penso que não. Podemos até orientar um jornalista a como melhor apresentar uma informação, mas devemos limitar ou censurar a expressão artística do autor de um romance ou de um roteirista de uma série de TV?

Para responder a essas perguntas, lanço mão de Nelson Rodrigues que afirmava que “sem conflito não há dramaturgia”. No caso da série “13 reasons why”, o roteirista nos traz uma Hannah cheia de questões, mas a personagem absorve estes problemas ao invés de confrontá-los. Talvez essa seja uma das razões para o suicídio da jovem, mas certamente é um dos pontos fracos da série.

Não levanto uma cruzada contra histórias epistolares (pelo contrário, escrevi um argumento de longa metragem com essa forma de contar). Apenas aceno, para meus colegas roteiristas especialmente, que verifiquem se o uso desses elementos não está dificultando o conflito entre os personagens e, consequentemente, criando filmes e séries aquém de suas capacidades. Em outras palavras: numa boa dramaturgia, os pontos de vista se expressam. Cabe ao espectador refletir sobre eles.

De qualquer forma, tenhamos sempre em mente que a série “13 reasons why” é assistida por “sobreviventes”, familiares, amigos. Ela atinge outros públicos que não apenas as pessoas com ideação suicida. E, o mais importante, ela traz para a arena do debate o tema do suicídio. Por si só, uma boa razão para ser assistida.

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