Declaro Para os Devidos Fins Que Te Amo

O texto abaixo, registrado no Escritório de Direitos Autorais com o título “Declaro Para os Devidos Fins Que Te Amo”, foi um dos dez argumentos vencedores do Concurso de Apoio ao Desenvolvimento de Roteiros Cinematográficos de Longa Metragem/Ficção de 2009, promovido pelo MinC.

A palavra “burocracia” tem origem nos componentes linguísticos francês, “bureau” (escritório) e grego, “krátos” (poder). Acredita-se que o termo latino “burrus”, usado para indicar uma cor escura e triste, teria dado origem à palavra francesa “bure”, um tipo de tecido que se colocava sobre as escrivaninhas das repartições. Daí a derivação da palavra “bureau”, primeiro para definir as mesas cobertas por este tecido e, posteriormente, para designar todo o escritório.

Pela própria etimologia da palavra, pode-se entender porque repartições públicas não são geralmente relacionadas a ambientes alegres. Portanto, este filme pode parecer, num primeiro momento, escuro como o tecido bure e triste como um som de violoncelo, já que os dois personagens principais trabalham numa repartição; mas é também – como escutaremos a própria personagem dizer – uma flor na fenda do asfalto.

Memorandum é uma comédia amarga sobre um homem e uma mulher que, trabalhando numa mesma repartição, se descobrem e se relacionam sem nunca se verem, chafurdados na burocracia que os alimenta e os devora.

O filme busca uma estética hiper-realista com a atmosfera sépia das repartições, os móveis de madeira escura, antigos, anacrônicos. A luz externa que entra pelas grandes janelas é de um amarelo difuso. O ritmo no interior do prédio é mais lento. Dentro, o ventilador empoeirado gira lento, as pás fazem barulho a cada volta, como moinhos; ainda usam-se máquinas calculadoras de mesa com rolos de papel. Fora, a neurose da cidade grande, o centro nervoso, ruas cheias, buzinas. Não apenas a velocidade é diferente, mas as épocas também são, como se na repartição o tempo tivesse passado mais devagar enquanto, fora, acontece o presente.

Neste mundo vive Getúlio, 45 anos. Um sujeito reservado que cumpre todas as regras, não apenas na repartição pública onde trabalha há mais de vinte anos, como também no seu dia-a-dia: atravessa a rua apenas na faixa de pedestres e com o bonequinho verde aceso; pede a nota fiscal mesmo quando compra apenas um pão francês; aguarda o trem do metrô atrás da linha amarela; paga e exige cada centavo que marca no taxímetro; chega até mesmo a sorrir quando lê o cartaz dizendo para fazê-lo pois está sendo filmado.

No trabalho não é diferente. Sua máxima – a qual costuma deflagrar quando questionado – é: “todo carimbo tem sua função”. Getúlio é um burocrata. Executa in-va-ri-a-vel-men-te as regras e os procedimentos padrão. Não o faz por mal, pelo contrário. Como ele mesmo diz, acredita ser parte de uma engrenagem que não permite desvios, sob o risco de fazer toda a máquina parar. Mas essa inflexibilidade irá frustrar, dentre outras pessoas, Armando, que se auto-intitula “um facilitador de processos” que trafega pelos labirintos das repartições corrompendo funcionários.

Já Margareth, aos 40 anos e solteirona, trabalha em outro departamento da mesma repartição e ainda mora com sua mãe a qual, desde que sofreu um AVC, exige cuidados especiais. Divide-se entre seu serviço enfadonho, as obrigações filiais (esvaziar comadres, dar banho e alimentar a idosa acamada) e uma compulsão por livros, os quais devora para se alimentar de histórias que nunca viverá.

Para suportar sua vida inglória, Margareth começa a escrever memorandos cheios de literatura. E Getúlio, que lê todos os processos com afinco, depara-se com os memorandos floreados, poéticos, que Margareth escreve.

Para Getúlio, utilizar tal linguagem em um documento oficial é inadequado, quase uma blasfêmia. Irritado, envia uma reprimenda: “Faz-se necessário o uso de vernáculo apropriado, de acordo com as normas internas, na redação dos documentos oriundos de vosso departamento”.

A partir daí, uma batalha é travada em cada parágrafo, em cada metáfora e metonímia.

Surpresa com o funcionário que crê cegamente em sua profissão, Margareth está imbuída de uma rebeldia que há muito não sentia. Falam-se através de linhas burocráticas, espaçamento duplo, fonte Times New Roman. Entre carimbos, papéis-carbonos e documentos em cinco vias, um diálogo entrelinhas se estabelece entre os dois. A princípio tímidos, os memorandos, solicitações e justificativas se multiplicam, se locupletam. Malotes cruzam os corredores traficando declarações.

Em casa, Margareth lê para sua mãe enferma os trechos mais empolgantes dos memorandos que Getúlio lhe escreve. Enquanto isso, em seu apartamento, Getúlio toca músicas mais alegres no seu violoncelo. A melodia saindo à sacada, se esgueirando pela estreita viela e tomando as ruas com seus sobrados do Bairro de Fátima.

Mas, certa tarde, ele aguarda em vão um memorando-resposta dela. Volta para casa cabisbaixo e seu violoncelo soa mais triste do que nunca naquela noite. Uma melodia lúgubre é escutada pelos vizinhos insones.

Terá sido uma invenção da solidão de Getúlio, cansado de ter um violoncelo como único contato com sua virilha? Terá sido uma alucinação, uma fuga para salvá-lo de sua pasmaceira cotidiana? Uma leitura mais atenta dos memorandos revelaria um encontro entre duas almas atormentadas, ou apenas o exercício despretensioso de atividades administrativas?

Enquanto isso, Margareth se ausenta para cuidar da mãe vítima de mais uma crise. Auxiliada por Armando, tenta interná-la, sem sucesso. Quando o quadro da mãe se estabiliza, Margareth volta ao trabalho.

Logo que reatam o diálogo escrito, cientes da fragilidade do laço que os une, Getúlio e Margareth marcam de se encontrar.

No dia combinado, à caminho do local de encontro, Getúlio é abordado por Armando que novamente pressiona nosso protagonista a abrir uma exceção e fazer um processo emperrado seguir adiante. Getúlio nega, como sempre. A discussão sai de controle e Getúlio é espancado. Na confusão, roubam-lhe sua carteira com seus documentos. Desacordado, acaba sendo levado a um hospital público. Enquanto isso, sem nada saber, Margareth espera por um Getúlio que não aparecerá e que continuará existindo apenas em tintas de carimbo. Depois, desolada, volta para casa, onde a prisão de uma vida sem brilho a aguarda.

Dias depois, ele volta a trabalhar, ansioso por explicar a Margareth sua ausência no encontro e desejoso de retornar aos códigos entre as papeladas, mas ele não obtém resposta. Sedento por explicar-se, ele penetra nos labirintos da repartição, em seus corredores e seus móveis velhos e escuros. É barrado por seguranças que pedem credenciais inexistentes.

Por causa das constantes e inúteis reengenharias e reestruturações na repartição, ele não consegue chegar ao departamento onde Margareth trabalha, pois este mudou de andar, ou o ramal não é mais aquele, ou o setor tem agora outro nome. Salas que no dia anterior estavam cheias de funcionários e cadeiras com paletós pendurados dão lugar a fiações expostas e pintores galgando escadas. Passa-se com ele o que viveu o agrimensor K., que nunca consegue chegar ao Castelo do livro homônimo de Kafka. Ironicamente, a burocracia e a estrutura opressiva agem contra Getúlio. Uma máquina a qual ele próprio lubrificara. Uma lei maior e inacessível o mantém submisso ao poder impessoal e ubíquo.

Obstinadamente, mas sem sucesso, ele tenta lutar contra os absurdos que ele mesmo havia imposto a outros.

Desesperançado, Getúlio retorna para trás de sua escrivaninha, onde os dias passam lentos. O ponteiro dos segundos do grande relógio onde ele trabalha se arrasta, para, retrocede: ele não consegue mais viver sem a poesia nos memorandos. O afinco de outrora não faz mais parte de sua rotina.

Chega então o obrigatório amigo-oculto de final de ano. Pode ser a grande oportunidade de encontrar-se com Margareth, já que é o único momento em que toda a repartição se reúne.

Mas, ao entrar no recinto onde se daria o evento, ele se vê no meio de um enorme anfiteatro, no qual uma multidão se acotovela, falando alto, e Getúlio mal consegue entrar no abarrotado recinto. Uma balbúrdia onde é impossível encontrar alguém.

Vai então aos recursos humanos saber o paradeiro de Margareth. Supera a barreira dos papéis, supera o mundo-celulose onde se esconde e se lança no mundo real onde os processos não seguem regras definidas, onde carimbos não têm função alguma. Fuça escaninhos, viola arquivos suspensos, solicita favores, oferece propinas. E munido do endereço de sua amada, irrompe, pela primeira vez em duas décadas, pela porta de saída da repartição antes do término do expediente.

Getúlio chega ao prédio, sobe as estreitas escadas e bate na porta do apartamento que outrora Margareth havia vivido com sua mãe. Uma vizinha diz ter visto quando a polícia arrombou a porta do apartamento, por onde um cheiro pútrido exalava há mais de uma semana.

Getúlio imagina Margareth, de volta do encontro frustrado, se aproximar do corpo inerte de sua mãe e a vê tirar um dos travesseiros de baixo da cabeça da senhora. “Dorme, mãe”, diz a filha, carinhosa. Depois, ela coloca o travesseiro sobre o rosto da velha, que não reage. Com as duas mãos, ela aperta firme o travesseiro, sufocando-a, enquanto ordena: “dorme” – palavra que finalmente as liberta do claustro que a vida de ambas se tornara.

Getúlio pode ver o corpo da mãe dela sendo retirado em um saco preto, enquanto Margareth é levada a um manicômio judiciário, onde ficará trancafiada até que seu processo seja analisado e julgado.

Naquela noite, desolado, ele vai sozinho ao concerto de violoncelo para o qual havia comprado dois ingressos, surpresa que faria à Margareth. Na saída, absorto em seus pensamentos, dois policiais o abordam e pedem seu documento. Getúlio apalpa os bolsos do paletó e se dá conta que a segunda via de sua carteira de identidade ainda não ficou pronta.

Getúlio é, então, levado para a delegacia, onde o colocam numa cela junto com outros tipos da fauna noturna. Após passar uma noite na prisão, Getúlio é solto. Alquebrado, volta para seu solitário apartamento.

Na manhã seguinte, o despertador irá tocar, agudo, com seus números verde-nervosos piscantes. Ele irá se sentar na beirada da cama, se erguerá com dificuldade do corpo ainda moído, sentirá a fisgada no joelho inchado e ficará debaixo do chuveiro até que as pontas de seus dedos enruguem.

Não tomará café na padaria, como era de costume, pois não sente fome. Fará sinal para o ônibus que o levará até a burocrática repartição onde exerce sua função há vinte e três anos, oito meses e seis dias. Só que agora não acredita mais em seu ofício. Não o interessa mais lutar por ele. Ele vai ter que engolir um trabalho que não faz mais sentido para ele, arrastando cada dia, sofrendo até o final do expediente, enfim, aturando e perpetuando-o.

Sem nunca terem se visto, as vidas de Getúlio e Margareth estarão marcadas para sempre pelas suas quase-presenças.